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14/09/2015

Projeto de ressocialização em unidades prisionais capixabas transforma a vida de detentos

A crença no ser humano, aliada ao poder de transformação da arte, é a motivação de professores e voluntários do projeto Libertarte, da Fundação Operartes, que realiza oficinas de coral, pintura e teatro em dois complexos penitenciários do Espírito Santo e agora conta com o apoio do Instituto Sincades. Criado em 2011, a convite do diretor de uma unidade, o projeto começou pequeno, de forma voluntária, e teve resultados tão positivos, que hoje atua em sete unidades prisionais, nos Complexos Penitenciários do Xuri e de Viana e complementa o programa de ressocialização desenvolvido pelo Governo do Estado, através da Secretaria do Estado da Justica (Sejus).    

Para a realização das aulas, oferecidas em espaços da própria penitenciária, o projeto conta com um corpo docente de dois professores em cada oficina. Além disso, uma capelã religiosa, com formação de psicanalista, dá suporte terapêutico durante os encontros e um grupo de voluntários de uma Igreja de Vila Velha também colabora com momentos de conversa e oração.

De acordo com a Supervisora Pedagógica da Fundação Operartes, Adalgisa Rosa, o processo de aprisionamento causa alguns efeitos no ser humano que precisam de acompanhamento psicológico. “A pessoa perde a noção da própria imagem, o que reflete no lado emocional, podendo levar à depressão ou até mesmo a surtos de raiva. Por isso, é importante a presença de um profissional para dar o suporte emocional. Além da psicanalista, alguns voluntários ligados à Igreja se dispõem a ir às unidades para conversar com os detentos, pois muitas vezes o que eles precisam é de desabafar e receber orações”, ressalta.

Em setembro de 2014, os detentos do Coral Libertarte foram os convidados especiais da Orquestra Camerata do Sesi, em um concerto de comemoração ao mês da independência do Brasil. O coral entoou os Hinos Pátrios no Teatro do Sesi e teve a regência de Adalgisa. Segundo ela, o Libertarte já beneficiou cerca de 1,1 mil pessoas desde o seu início. “Hoje, as unidades prisionais contam com turmas de 20 a 40 alunos, variando conforme a oficina, e atende, anualmente, 350 pessoas”, destaca. As atividades começam em março e terminam em dezembro, voltando novamente no ano seguinte. O aluno tem a possibilidade de continuar na mesma oficina, para aprimorar seu conhecimento específico ou escolher outra, para ampliar o leque de aprendizagem.

A Fundação Operartes possui instrumentos musicais para as aulas de canto coral – microfones, teclado, violinos, caixa de som etc –, além de um acervo de figurinos para a realização dos espetáculos, doado pelo Teatro Municipal de São Paulo. De acordo com Adalgisa, os materiais para as oficinas de pintura são os que necessitam de doação periodicamente. “Como são materiais de uso único, precisamos da ajuda de parceiros como o Instituto Sincades, que está doando todos os produtos paras as aulas de pintura até o final do ano”, afirma. O Instituto Sincades, como fomentador de ações de inclusão socioculturais há sete anos, já beneficiou cerca de 1,4 milhão de pessoas e apoiou parcial ou integralmente, mais de 400 projetos.

A supervisora do Operartes acredita que a arte é uma ferramenta poderosa de transformação e, para trabalhar no sistema prisional, é necessário partir da premissa que o ser humano pode mudar. “Eu sempre digo o seguinte: eles de fato cometeram um erro, uma atitude ilícita e, legalmente, eles têm que pagar. Mas eles vão sair das unidades prisionais. E como nós queremos que esteja esse ex-detento? Então, nós acreditamos que oferecendo essa oportunidade para que eles repensem a vida e percebam que agora são produtores de algo belo como a arte e a música, possam produzir algo igualmente belo para o próprio futuro. Essa é a reflexão que temos feito com eles, que o futuro pode ser diferente e que nós acreditamos neles”, finaliza.

Ressocialização

O Libertarte faz parte dos projetos que integram o programa de ressocialização da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus). O Governo do Estado oferece aos detentos cursos profissionalizantes e atividades psicossociais diversas, como forma de possibilitar a inserção dos internos no mercado de trabalho após o cumprimento da pena. Atualmente, 2,6 mil internos trabalham em atividades dentro e fora das unidades prisionais, em vagas ofertadas por 223 empresas conveniadas à Sejus. Entre os trabalhos desenvolvidos, destaca-se a produção de estofados, confecção de blocos de concreto, produção de mudas de eucalipto, construção civil, serviços gerais e de finalização e acabamento de confecção. Até o final do ano, ainda serão ofertadas 6 mil vagas em cursos profissionalizantes, em diversas áreas.

As atividades educativas beneficiam, atualmente, 3,2 mil detentos de 31 unidades prisionais, que têm aulas desde a alfabetização até o Ensino Médio, na modalidade de Educação Para Jovens e Adultos (EJA). Com este programa, o índice de analfabetismo foi significativamente reduzido nos últimos anos e hoje é de cerca de 2% nas unidades prisionais masculinas e zero nas unidades femininas.